Os “novos Einsteins” serão os cientistas que compartilham

Em janeiro de 2009, um matemático da Universidade de Cambridge chamado Tim Gowers decidiu usar seu blog para executar a experiência Polymath. Ele escolheu um problema matemático e tentou resolvê-lo usando seu blog para postar ideias e progressos parciais. Ele também lançou um convite aberto para que outros contribuíssem com suas próprias ideias, considerando que muitas mentes são mais poderosas do que apenas uma.

Algumas horas depois de aberta a discussão, um matemático húngaro-canadense postou um comentário, quinze minutos mais tarde um professor de matemática da Arizona High School e três minutos depois, o matemático Terence Tao da UCLA contribuiu. A discussão se inflamou e em apenas seis semanas o problema matemático havia sido resolvido.

Este trabalho é um exemplo de experimento na ciência em rede dos muitos que estão sendo feitos para estudar de galáxias a dinossauros. Estes projetos utilizam ferramentas online como ferramentas cognitivas para potencializar a inteligência coletiva. As ferramentas online são uma maneira de conectar as pessoas certas para os problemas certos no momento certo, ativando o que seria uma competência latente.

O trabalho em rede tem o potencial de acelerar a descoberta em todas as ciências. Pode-se notar o processo do dia-a-dia da pesquisa científica que muda mais rapidamente nas últimas décadas do que nos últimos três séculos.

Entretanto, ainda existem grandes obstáculos para a concretização deste objetivo, empreendimentos como o projeto Polymath continua a ser a exceção e não a regra.

Considere a ideia de compartilhar dados científicos online. O exemplo mais conhecido disto é o projeto do genoma humano, cujos dados podem ser baixados por qualquer pessoa. Quando você lê a notícia de que um determinado gene está associado a uma determinada doença, você está certamente vendo uma descoberta que se tornou possível através da política do projeto de dados abertos.

Apesar do valor dos dados abertos, a maioria dos laboratórios não fazem nenhum esforço sistemático para compartilhar dados com outros cientistas.

Por que os cientistas não compartilham?

Se você é um cientista/pesquisador candidato a um emprego ou uma bolsa de estudos, o maior fator determinante do seu sucesso será o seu registro de publicações científicas. Se esse registro é grande você vai se sair bem, caso contrário, você tem um problema. Então ,você dedica suas horas de trabalho escrevendo artigos para serem publicados em revistas científicas.

Mesmo se você acha que seria muito melhor para a ciência compartilhar dados online com curadoria apropriada, exceto em alguns campos, o compartilhamento de dados não é algo que seus colegas lhe darão crédito por ter feito.

Há outros caminhos que alguns cientistas ainda não dominam, como o uso de ferramentas on-line. Considere por exemplo, as wikis científicas abertas lançadas por alguns pioneiros corajosos em áreas como a computação quântica, teoria das cordas e genética. Wikis especializadas poderiam servir como espaços online de referência das mais recentes pesquisas em um campo específico. Elas podem incluir descrições de grandes problemas científicos não resolvidos e servir como uma ferramenta para encontrar soluções.

Mas a maioria das wikis falharam! Elas têm o mesmo problema que o compartilhamento de dados abertos. Mesmo que os cientistas acreditem no valor da contribuição, eles sabem que escrever um único papel medíocre (artigos convencionais) vai contar muito mais para as suas carreiras.

Os cientistas terão que abraçar e recompensar o compartilhamento aberto de todas as formas de conhecimento científico, não apenas a publicação em revista tradicional. Ciência em rede deveria ser a ciência aberta. Mas como chegar lá?

Um bom começo seria as agências de fomento governamentais trabalharem com os cientistas/pesquisadores para desenvolver requisitos para o compartilhamento aberto de conhecimento. Essas políticas já ajudaram a criar conjuntos de dados abertos como o genoma humano, mas elas devem ser ampliadas para exigir o compartilhamento de dados mais cedo e mais amplamente. Os órgãos de fomento também deveriam incentivar os cientistas a apresentar novos tipos de evidências de suas descobertas não apenas em periódicos científicos tradicionais como parte de seus pedidos de financiamento.

A própria comunidade científica precisa ter uma conversa sobre o valor dessas novas ferramentas online. Tem-se que derrubar a ideia de que é um desvio do trabalho “real” quando os cientistas realizam pesquisas de alta qualidade em campo aberto. Ciência financiada com dinheiro público deve ser uma ciência aberta.

Melhorar a maneira que a ciência é feita significa, por exemplo, acelerar a descoberta da cura do câncer, resolver o problema das alterações climáticas e lançar a humanidade de forma permanente no espaço.

Nos próximos anos, tem-se uma oportunidade extraordinária para reinventar a própria descoberta. Mas para isso, é necessário criar uma cultura científica que envolva o compartilhamento aberto do conhecimento.

Fonte: The Wall Street Journal

Imagem CC-BY: http://www.flickr.com/photos/barockschloss/4928969062/