Chovia em Santarém na manhã de sexta-feira, 27 de Maio. E a chuva por lá atrapalha a vida de todo mundo. As muitas ruas de terra se enchem de buracos no inverno, como eles chamam essa época do ano. Muitas das linhas de ônibus param de circular em dias como esse e mesmo os carros precisam se aventurar para atravessar a cidade. Não estamos falando de uma cidade pequena! Na região do Baixo Amazonas, que inclui Santarém, os santarenos, ou mocorongas como se chamam os nascidos por lá, somam quase 300 mil espalhados na cidade e no campo.
O Encontro começou perto das 10h, quando já eramos quase 30 pessoas entre professores e coordenadores das Escolas Municipais, professores do Núcleo de Informática Educativa de Santarém – o NIE, crianças do projeto Jovens CodeirXs, estudantes e professores da Universidade Federal do Oeste do Pará – a UFOPA, representantes da Secretaria Municipal do Trabalho e Assistência Social, a equipe do Casa Brasil e pessoas da comunidade próxima ao local do evento.
A abertura ficou por conta da Adriane Gama da Casa Brasil e do Coletivo Puraqué com uma música de acolhida de Mestre Chico Malta, de Alter do Chão: “Se eu soubesse que tu vinhas mandava varrer a estrada, pingava pingos de cheiro: sereno da madrugada”. Em seguida iniciamos as atividades propondo uma roda de apresentação. Cada pessoa que se apresentava falava um pouquinho de si e escolhia um conceito que fosse importante na atividade que desenvolve profissionalmente. Feito isso cada um buscou um conceito que completasse o seu e, em duplas, relacionaram os conceitos, contaram um pouco de si para o outro e do trabalho que desenvolvem. Falamos de compartilhamento, liberdade, aprendizagem, amor, autoria, ensino, solidariedade intelectual, direito de uso, conhecimento etc.
Durante toda a manhã debatemos temas caros na construção do que são recursos educacionais abertos. Você concorda com as afirmações:

  • Todo professor é um autor.
  • Internet é uma ferramenta importante para a educação.
  • Posso usar tudo que está na Internet em sala de aula.

Você discorda? Em Santarém mudamos muito de opinião com as argumentações de quem concordava e de quem discordava. Pouca gente ficou no meio, sustentando o “não sei”, até o final da discussão!
Aliás a participação foi ponto forte no Encontro todo. Não foram poucos os depoimentos que mostravam as pessoas envolvidas e dedicadas com as discussões sobre educação, compartilhamento, solidariedade intelectual, material educacional etc.
Quando o tema foi relembrar “Coisas que cada um de nós fez uso para ensinar” e aprender chegamos ao mapa de Recursos educacionais que vocês veem abaixo. Cada um se responsabilizou por listar três dos recursos que vemos no mapa. Não é a toa que jogos e vídeos apareceram tantas vezes. Mas vale a pena conferir em alguns recursos bem diferentes que foram levantados: bingo, pintura, fantoches etc.

Mapa de Recursos Educacionais

Em grupos os participantes discutiram sobre cinco grandes temas – aqueles que mais apareceram nas atividades anteriores. Foram eles: autoria, direito de uso, liberdade, conhecimento, compartilhamento. O resultado do trabalho coletivo foi partilhado com todos os presentes em uma grande roda.
Terminada a manhã fomos almoçar e perdemos parte do grupo: as secretarias municipais não liberaram todos os professores para participarem o dia todo do encontro.
De tarde, quando recomeçamos os trabalhos, se juntaram ao grupo, então reduzido, outros professores e crianças – alunos do período da manhã – que foram ao Casa Brasil para usar o telecentro e decidiram participar conosco para entenderem o que é Recursos Educacionais Abertos e jovens CodeirXs – projeto do Coletivo Puraqué. E foi exatamente esse o mote para o início das atividades da tarde: partilhamos “definições” que já existem – na Wikipédia, documentos da Unesco, na Fundação William e Flora Hewlett etc – para os Recursos Educacionais Abertos e convidamos as pessoas, para em grupo criarem uma frase que tratasse do que significa REA para elas.
O resultado foi incrível:

  • “Todo e qualquer recurso que possa ser modificado, adaptado de acordo com a necessidade e a realidade de cada um.”
  • “São recursos criados para o bem da coletividade, onde não há um dono, mas sim vários autores.”
  • “São ferramentas que nos da possibilidade de inovação para gerar mais informação transformada em sabedoria…”
  • “Reutilizar outras metodologias de ensino para as inovações de gerar e aprender com esses recursos abertos…”
  • “Uma ideia que propõe recursos e produtos educativos que possam ser distribuídos e compartilhados de forma livre.”
  • São todos recursos que podem ser utilizados na educação que respeitem a filosofia livre.”

O que nasceu da atividade de conceituação coletiva do que é REA, que passa por uma apropriação do tema, nos surpreendeu a todos – participantes e facilitadores. Tanto é assim que na rodada de encerramento quando todos nós contamos um pouco do que significou o encontro várias pessoas partilharam o fato de que não tinham a menor ideia do que poderia significar Recursos Educacionais Abertos, que foram para o encontro na expectativa de ouvir conceitos e teorias, mas que o que encontraram foi uma construção coletiva das ideias que resultou em uma apropriação efetiva da proposta como movimento de liberdade e democratização e não apenas teoria ou conceito.
Foi pensando na prática que predispõe a apropriação que propusemos uma atividade mão na massa: em grupo, os participantes foram desafiados a criarem planos de aula que tivessem como objetivo último construir com os educandos o que é REA e que questões estão envolvidas quando tratamos do tema.
O resultado foi incrível: um plano propôs criar um glossário para estimular os alunos e explicar licença e compartilhamento; o segundo propôs dois planos: um deles pretendia fazer uso do remix de uma boneca de pano, e o outro propunha a criação de paródias; o terceiro grupo montou uma aula teórica – para ser desenvolvida em telecentros da rede do Casa Brasil/ Coletivo Puraqué – com a apresentação dos conceitos de Recursos Educacionais Abertos em comparação com o Software Livre que é uma realidade conhecida e apropriada pelo público-alvo; o quarto e último grupo decidiu trabalhar com REA a partir do resultado de trabalhos desenvolvidos em Software Livre: ao final de uma oficina de Cinelerra, por exemplo, o vídeo produzido quando fosse disponibilizado seria foco de discussões sobre torná-lo um Recurso Educacional Aberto.
A última atividade do dia foi a construção de um plano de ações para seguir adiante com a comunidade REA que se criara ali. Cada pequeno grupo se encarregou de propor 3 ações práticas e registrá-las cada uma em um postit. Terminada a criação, na partilha da roda com todos os participantes, separamos essas ações em ações de curto prazo, ações de médio prazo e ações de longo prazo.
Encerramos o encontro com um grande convite para que todos se juntassem a comunidade REA. Como uma das ações propostas foi a criação de uma comunidade REA-Santarém, ficou decidido que Jader e Adriane Gama fariam parte da comunidade REA Brasil. O convite já foi feito e os dois estão na nossa lista de discussão.

Vale a pena pensar agora em levar algum Santareno para nosso próximo encontro em algum canto do Brasil partilhando realidades e experiências e semeando conceitos de liberdade, autoria, compartilhamento e solidariedade intelectual!

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